Posts com Tag ‘morte’

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queda livre rumo ao céu

Janeiro 28, 2008

o mais impressionante de se estar quase-morto é a capacidade de poder olhar para muitos lados ao mesmo tempo. sente-se vários seres, vários tempos, vários acontecimentos; eles se comunicam e se implicam em um segundo e tudo adquire uma existência à meia-luz. é como se eu tivesse explodido e me alastrado, passando a ocupar sofregamente uma porção de corpos frágeis.

eu temo esse jeito de viver. sinto um frio na alma quando penso que de repente minha vida será tão rarefeita que eu não saberei mais o que se quer dizer quando se diz “eu”. talvez eu seja apenas um nome solto em uma mente gigantesca e descontrolada, resistindo ao esquecimento por algum motivo que já não me lembro ou que nunca soube.

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perigoso estacionar

Dezembro 24, 2007

é como se o tempo viesse te provocar e adorasses a briga. vento que te empurra pelas costas; tu em 45 graus, em posição graciosa. absurda é a imagem para quem não sabe da força do tempo. mas todo ser que é daqui a conhece. sem o tempo, eu cairia vazio. você também.

o dono do tempo, enorme boca que suga tudo (por isso o vento vem de trás), tem nas mãos teus fios -

tendências vontades temores possibilidades, virtualidades à espera do ingrediente que lhes faça ferver

- e os puxa. e adoras lhe resistir. talvez escolhesses não ter que lutar, mas tens; posso ver daqui a água em tua boca!

puxa alguns fios, nos seguramos. descobrimos a força de alguns. uns duram mais tempo, outros acabam arrebentando (mas nessa, pelo menos que se goze a viagem).

e, nessa dança, enlouqueces. vives. sem aquela bocarra, teu sangue não seria nada. com o gosto agridoce do tempo, descubra teus poderes, teus poços. tuas vidas e tuas mortes. um dia nos tornaremos tão complexos, milenares, mundos dobrados em globo de cristal, que o jogo nunca mais terá um fim. só te peço que não te canses antes de te matar, meu bem.

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morrer de vez em quando..

Janeiro 1, 2007

já me matei faz muito tempo

me matei quando o tempo era escasso

e o que havia entre o tempo e o espaço

era o de sempre

nunca mesmo o sempre passo

.

morrer faz bem à vista e ao baço

melhora o ritmo do pulso

e clareia a alma

.

morrer de vez em quando

é a única coisa que me acalma

Paulo Leminski

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fogo negro

Abril 9, 2005

de tantos movimentos sem sentido, o desejo dos olhos morreu.

após tanto desesperar e não encontrar refúgio, o coração desacelerou.

meio a tantos toques despropositados e sentidos revelando-se ilusões, descobri que esta face tão humana é como uma máscara de vidro fosco, que morre ao se formar, que se forma ao morrer.

nada mais dói ou delicia; não se tocam mais as saudades; as esperanças se escrevem no vento; não há mais lar para nós, filhos da noite.

seria fácil morrer assim em anestesia; mas há ainda algo em mim vivo ao que não sei dar nome.

é um fogo negro, que me faz gritar em prantos mesmo sem que eu tenha no mundo o que perder.

que é esta luz que nasce e renasce no escuro? será loucura? será um encontro? será o último suspiro entre nossas vontades e o mundo?

e o outro? o que aconteceu ao outro? sempre foi tão difícil entender o outro ou fomos nós que nos tornamos labirínticos demais?

talvez tentar perseguir nossa essência seja como tentar dominar o horizonte. talvez acabemos ambiciosos assim criando um emaranhado absurdo de idéias saudosas; nele novamente os filhos serão aprisionados durante um vôo inesperado…