já cansei de sonhar com o céu
.
para que apostar certezas no futuro?
se tudo um dia acaba fracassando,
se toda convicção se torna arrependimento
.
para que esperar que as coisas melhorem?
se todo vôo nos exaure
e nos lança inevitavelmente à mesma dor do parto de sempre
.
o único que sei é que sinto muito
e todo o resto que vejo é feito de gelo
neste oceano revoltoso
onde toda verdade me escapa por entre os dedos
.
sou um estrangeiro no tempo
.
as histórias que lembro são as que costumei contar,
o mundo que vejo espelha minhas viscerais ambições,
os sonhos são substituídos por outras fantasias
.
há um universo sombriamente denso
que só toco com as pontas dos pés -
mas mesmo estando assim
na beira do precipício,
eu não consigo parar de viver
.
tenho no peito um inferno
que me dói, que ferve, que me avassala,
- tendo eu alma ou estando ela desacordada -
que me lança em qualquer desatino,
em qualquer rebeldia contra a lúcida monotonia
.
sinto de vez em quando que o mundo muda
e isso me inquieta e excita,
mas não consigo saber porque muda
e se muda para melhor ou para pior
- mas ele sempre me diz que muda,
mesmo que mudamente
.
ah, que terror apaixonante se tornou
ver o mundo se derreter sob as palavras acabadas
apesar desta vertiginosa hesitação
.
já estou farto das belezas frágeis;
quero amar a tortuosidade humana,
a excitante feiúra imprevista por trás dos hábitos,
o redemoinho que desmorona qualquer serena ilusão,
a fonte de toda transgressão!
.
quero visitar todos os cantos possíveis deste labirinto sem fim
e quero isso hoje e depois hoje
.
já que tudo é sonhado,
já que mais nenhuma resposta que cai do céu é convincente,
já que tudo é entendido tardiamente,
eu me dou a adivinhar-te com sinceras mentiras,
a dar risada de toda inevitabilidade,
a ser as pessoas que se desejar ser,
como num baile de máscaras
.
eu sigo correndo
com a euforia de não haver portos para mais de uma noite.
repito-me de diversas maneiras,
busco em vocês espelhos de fantasmas,
fugindo das fugas sempre até cansar
neste mundo estranhamente familiar
.
minha paz só poderá vir de fora
quando eu, assim abarrotado de dúvidas combustíveis,
puder finalmente errar

