Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem nas urnas
me disse: vai, pangaré, ser trouxa na vida!
Não dei corda, claro – era criança apenas…

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem nas urnas
me disse: vai, pangaré, ser trouxa na vida!
Não dei corda, claro – era criança apenas…

Estes grafites foram pintados no muro lateral da Legião Mirim, ao lado da Associação Cultural de Apoio à Banda Musical de Assis (ASCABAMA), em Assis-SP, na margem oposta à estação ferroviária.

Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor.
Mayakovsky
A liberdade é uma coisa tão preciosa que devia ser racionada.
Lénine
O homem nunca poderá ser igual a um animal: ou se eleva e torna-se melhor, ou se precipita e torna-se muito pior.
Soloviev
Parece-me que na escala das medidas universais há um ponto em que a imaginação e o conhecimento se cruzam, um ponto em que se atinge a diminuição das coisas grandes e o aumento das coisas pequenas: é o ponto da arte.
Nabokov

nem todas as câmeras dão conta de parar o mundo. no calor do cinema, vazamos por entre nossas próprias vistas. o olho esquerdo é distoante, apesar das familiaridades. que importa a paz da máquina se estamos pérola no rio?
caras vêem com tempo, é prêmio de making of. o pavor passa depois de tanto transtorno. a mesmice passa quieta depois de tanta idade.
relaxe que a deixa vem se precisar – ou sem precisar. aja, viva, mas não esqueça de respirar com momento. e, se meio mundo cair, prepare-se: você pode ter que nascer desde aquela vida.
se nada disso der certo, guarde os óculos; a coisa pode já estar certa, pessoa.

o mais impressionante de se estar quase-morto é a capacidade de poder olhar para muitos lados ao mesmo tempo. sente-se vários seres, vários tempos, vários acontecimentos; eles se comunicam e se implicam em um segundo e tudo adquire uma existência à meia-luz. é como se eu tivesse explodido e me alastrado, passando a ocupar sofregamente uma porção de corpos frágeis.
eu temo esse jeito de viver. sinto um frio na alma quando penso que de repente minha vida será tão rarefeita que eu não saberei mais o que se quer dizer quando se diz “eu”. talvez eu seja apenas um nome solto em uma mente gigantesca e descontrolada, resistindo ao esquecimento por algum motivo que já não me lembro ou que nunca soube.


tadin
deste poemin
assim
tão pititin
simplizin
que caba antes de acabá
(só fartô rimá no fim)

pense nisto: quando te presenteiam um relógio, te presenteiam um pequeno inferno florido, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. não te presenteiam somente o relógio, muitos parabéns para você e esperamos que te dure porque é de boa marca, suiço com âncora de rubis; não te presenteiam somente esse pequeno mineiro que te prenderás no pulso e passearás contigo. Presenteiam-te – não o sabem, o terrível é que não o sabem -, presenteiam-te um novo pedaço frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é teu corpo, que tem que se prender ao teu corpo com sua pulseira como um bracinho desesperado pendurando-se de teu pulso.
presenteiam-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de lhe dar corda para que siga sendo um relógio; presenteiam-te a obsessão de atender à hora exata nas vitrines das joalherias, no anúncio pelo rádio, no serviço telefônico. presenteiam-te o medo de perdê-lo, de que te roubem ele, de que te caia no chão e se quebre. presenteiam-te sua marca, e a segurança de que é uma marca melhor que as outras, presenteiam-te a tendência de comparar teu relógio aos demais relógios. não te presenteiam um relógio, tu és o presenteado, a ti oferecem para o aniversário do relógio.
traduzido por mim, de Júlio Cortázar,
em Minicuentos de Cronopios
versão original: Instrucciones para dar cuerda al reloj