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a tristeza de domingo

Setembro 24, 2006

já cansei de sonhar com o céu

.

para que apostar certezas no futuro?

se tudo um dia acaba fracassando,

se toda convicção se torna arrependimento

.

para que esperar que as coisas melhorem?

se todo vôo nos exaure

e nos lança inevitavelmente à mesma dor do parto de sempre

.

o único que sei é que sinto muito

e todo o resto que vejo é feito de gelo

neste oceano revoltoso

onde toda verdade me escapa por entre os dedos

.

sou um estrangeiro no tempo

.

as histórias que lembro são as que costumei contar,

o mundo que vejo espelha minhas viscerais ambições,

os sonhos são substituídos por outras fantasias

.

há um universo sombriamente denso

que só toco com as pontas dos pés -

mas mesmo estando assim

na beira do precipício,

eu não consigo parar de viver

.

tenho no peito um inferno

que me dói, que ferve, que me avassala,

- tendo eu alma ou estando ela desacordada -

que me lança em qualquer desatino,

em qualquer rebeldia contra a lúcida monotonia

.

sinto de vez em quando que o mundo muda

e isso me inquieta e excita,

mas não consigo saber porque muda

e se muda para melhor ou para pior

- mas ele sempre me diz que muda,

mesmo que mudamente

.

ah, que terror apaixonante se tornou

ver o mundo se derreter sob as palavras acabadas

apesar desta vertiginosa hesitação

.

já estou farto das belezas frágeis;

quero amar a tortuosidade humana,

a excitante feiúra imprevista por trás dos hábitos,

o redemoinho que desmorona qualquer serena ilusão,

a fonte de toda transgressão!

.

quero visitar todos os cantos possíveis deste labirinto sem fim

e quero isso hoje e depois hoje

.

já que tudo é sonhado,

já que mais nenhuma resposta que cai do céu é convincente,

já que tudo é entendido tardiamente,

eu me dou a adivinhar-te com sinceras mentiras,

a dar risada de toda inevitabilidade,

a ser as pessoas que se desejar ser,

como num baile de máscaras

.

eu sigo correndo

com a euforia de não haver portos para mais de uma noite.

repito-me de diversas maneiras,

busco em vocês espelhos de fantasmas,

fugindo das fugas sempre até cansar

neste mundo estranhamente familiar

.

minha paz só poderá vir de fora

quando eu, assim abarrotado de dúvidas combustíveis,

puder finalmente errar

Um comentário

  1. “para que apostar certezas no futuro?
    se tudo um dia acaba fracassando,
    se toda convicção se torna arrependimento”

    essa estrofe é demais !
    *-*

    eu, que não sou muito chegada a ler, me apaixonei pelo poema.



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